A Linguística Aplicada no contexto da tecnologia móvel

Linguistica aplicada

Linguistica aplicada

Embora as raízes da Linguística Aplicada tenham sido encontradas há muito tempo, a noção deste conceito como é conhecido hoje surgiu nos Estados Unidos, em 1941, após o estabelecimento do English Language Institute na Universidade de Michigan ( DAVIES e ELDER, 2004). A fim de compreender a evolução atual da Linguística Aplicada, parece-nos útil observar as gerações sucessivas desta disciplina desde a sua criação, apresentadas nos estudos de Weideman (2009), no quadro 1. Não é nosso objetivo discutir todas as fases ou evolução apresentadas nesta tabela, não porque elas não sejam importantes, mas porque preferimos trazer à tona um novo debate, posto que a organização da Linguística Aplicada conseguiu superar as preocupações iniciais e está pronta para efetuar um novo percurso em sua história.

 

 Quadro 1-  Sete gerações sucessivas da Linguística Aplicada 
Modelo/tradição Caracterizado por 
1 Linguística / behaviorista Abordagem científica.
2 Linguística /Paradigma aumentado A linguagem é um fenômeno social.
3 Modelo Multi-disciplinar Atenção não apenas à linguagem, mas também à teoria de aprendizagem e pedagogia.
4 Investigação, aquisição de segunda língua Pesquisas experimentais sobre como as línguas são aprendidas.
5 Construtivismo Conhecimento de um novo idioma como sendo construído de forma interativa.
6 O pós-modernismo Relações políticas no ensino e múltiplas perspectivas.
7 Abordagem de um sistema adaptativo complexo Surgimento da  linguagem não-linear através da adaptação dinâmica.

Fonte: Traduzida dos estudos de Weideman (2009)

Linguística Aplicada é notoriamente difícil de definir. Uma série de discussões nos últimos anos têm mantido vivo o debate sobre sua definição. O termo muitas vezes foi considerado como um sinônimo de pedagogia de linguagem. Não resta dúvida que Linguística Aplicada continua a ser claramente associada a problemas de aprendizagem de línguas e de ensino, mas hoje em dia, ela tornou-se muito interessada pela vida social, pelos aspectos culturais, por questões de política e de identidade linguística e pela abordagem de problemas do mundo real tendo a linguagem como o centro da discussão.Como diz Weideman (2009), a Linguística Aplicada tem uma nova percepção de que a disciplina se conecta tanto com humanos quanto com as ciências naturais.

Rajagopalan, 2011 afirma que  Linguística Aplicada é pensar a linguagem no âmbito da vida cotidiana, no mundo que estamos vendo e vivendo. É pensar a linguagem dentro do próprio contexto. E linguagem é aquilo que a gente vive, é nossa vivência. A linguagem é o nosso modo de lidar com as nossas circunstâncias, a nossa sociedade, a nossa inserção dentro da sociedade. Portanto, tudo dentro do mundo é mediado pela linguagem.

Schmitt e Celce-Murcia (2002, p.1) oferecem a seguinte definição para este termo: “Linguistica Aplicada é uma disciplina que tem preocupações sobre (a) a linguagem, (b) como é aprendida, e (c) como é utilizada, a fim de alcançar uma finalidade ou apresentar soluções criativas para problemas com a linguagem da vida real”.  Esta solução criativa, em nosso estudo, é uma atividade imaginativa que produz resultados originais e de valor social, como consequência de esforços contínuos para construir significados. Como define Vygotsky  (1999), a imaginação é como uma atividade criativa, transformadora que se move de uma forma concreta de um lado para o outro.

Linguistica aplicada

Linguistica aplicada

Fonte: Google

Recentemente, com a ênfase na criatividade em contexto de ensino, a Linguística Aplicada é vista como uma ciência do design ( WEIDEMAN, 2009),que estuda a melhor forma de motivar e atingir diferentes tipos de aprendizagem. Porém, o  que significa o termo design?

Moy e Craft (2012) descrevem este processo com muita clareza, afirmando que o termo se origina a partir da fonte socialmente criativa, motivado por necessidade, especulação, normas culturais, fatores ambientais, desejo ou fantasia. Uma visão surge como um impulso criativo, aparecendo na mente como um flash intuitivo com vagas imagens – este impulso tem agência ou energia e assim deve ser perseguido. Com a reflexão, o impulso criativo torna-se mais definido, familiarizado e nítido. Através de várias tentativas e erros – a verificação de hipóteses, ajustes provenientes de feedback, o impulso criativo toma forma. Se perseguido até a sua conclusão, esse impulso criativo, um dia, aparece para o mundo como uma expressão de realidade – uma realidade que começou com a imaginação de alguém. Assim, podemos dizer que design é uma atividade muito humana.

Na verdade, um dos grandes avanços em Linguística Aplicada tem sido o elevado respeito para a competência profissional dos professores como designers. Ao contrário de que ocorria há tempos passados, o professor, como implementador de projetos aplicados, estava à mercê do design de especialista. A abordagem atual vê os professores como criadores de seus processos de aprendizagem, reconhecendo a importância do conhecimento, da experiência e a da criatividade humana, deixando para segundo plano o chamado manual do professor.

Podemos dizer que construir um design para trabalhar com a linguagem que aborda as preocupações do mundo real de forma crítica e reflexiva, com objetivo prático em mente, podemos chamar Linguística Aplicada.Professores de línguas lucrarão com suas próprias experiências realizando por si mesmos pesquisa-ação, de modo a refletir sobre seus trabalhos a fim de modificar, adaptar e aumentar a eficiência em suas práticas. É nossa convicção de que os linguistas aplicados e educadores de línguas têm sempre em mente o destinatário final de todos estes debates: os alunos. Se estes estão significativamente envolvidos no processo, os resultados serão positivos.

Linguistica aplicada

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Fonte:Google

Neste fase da tecnologia móvel, estamos vivendo uma fase da Linguística Aplicada como design, ou seja, um momento em que alguns professores estão tentando descobrir e criar maneiras de configurar tarefas e atividades que possam permitir uma facilitação da aprendizagem de línguas.

 

 

Referências:

DAVIES, A.; ELDER, C.General introduction. Applied linguistics: subject to discipline? In: A. Davies; C. Elder (Eds.). The handbook of applied linguistics. Oxford: Blackwell, 2004.pp.1-15.

MOR, Y.; CRAFT,B. Learning design: reflections on a snapshot of the current  landscape. Research in Learning Technology. 1995.Disponívelem: http://oro.open.ac.uk/33910/1/ALT-C2012-ASLD.pdf

SCHMITT, N. ;CELCE-MURCIA,M. An overview of applied linguistics. In N. Schmitt  (ed), An introduction to applied linguistics. London: Edward Arnold. 2002. pp. 1-18.

WEIDEMAN, A. Uncharted territory: An emerging paradigm and the foundations of applied linguistics. Departamento  da língua inglesa. Universidade de Estado Livre – Africa do Sul. 2009.Disponível em: http://www.allofliferedeemed.co.uk/Weideman/tuk05211.pdf

VIGOTSKY,L.S. Pensamento e  linguagem.2.ed.Tradução de Jefferson Luiz Camargo e revisão técnica de José CipollaNeto.São Paulo: Martins Fontes, 1999.

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Este trabalho é um recorte de minha tese de doutorado defendida na Universidade Federal de Pernambuco, sob orientação do Prof. Antonio Carlos Xavier e da Profa. Ana Amélia Carvalho (Universidade de Coimbra- Portugal). Para outras informações sobre o assunto , ver SANTOS COSTA ( 2013). Agradeço à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior ( CAPES) pelo apoio recebido durante meu doutorado sanduiche em Portugal.

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